domingo, 8 de janeiro de 2017







Havia de estar à nossa espera, numa tarde fria e por vezes ventosa a cascata da Nossa Senhora da Piedade de Tábuas. Apesar de eu estar bem agasalhada por várias camadas de roupa, as mãos, que se querem despidas para ajustar os parâmetros a máquina fotográfica queixaram-se até que o acumulado de subidas e descidas, mais ou menos escaladas, compensaram com um fluxo calor que vinha de dentro para fora.  Até lá chegar seguimos quase sempre acompanhados de uma cascata aqui e outra mais além a revigorar a nossa saudade da serra com este banho de floresta. O verde brota da terra nessa força majestosa que faz das árvores as rainhas e das folhas caídas a passadeira por onde eu, súbita, avanço numa vénia constante a esta natureza que trago no coração e ao tempo destes momentos que vivemos em comunhão com este estado mais puro da vida.


domingo, 1 de janeiro de 2017




Algures no início de 2016 perdi o meu periquito Trevi, na intenção de lhe limpar a gaiola de manhã (normalmente só o fazia à noite) e com a janela da cozinha aberta, como sempre tenho nos dias quentes e soalheiros. Escapou, observei-o incrédula e impotente. E depois angustiada por tanta conjugação infeliz que ainda me levou a ver que a sua liberdade durou pouco. Ontem, ultimo dia do ano, sentada na mesa da sala vi voar diante dos meus olhos um periquito que entrou pela janela da cozinha sempre aberta nos dias quentes e soalheiros. É azul, da cor da prosperidade...


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016






Ainda não tenho tempo para balanços, mas há balanços diários que me fazem a ajeitar o corpo à ondulação. A onda que me trás aqui é essa que trago cada vez mais serena em mim, e a agua serena espelha melhor o que me vai dentro. 
a gratidão


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

domingo, 30 de outubro de 2016



Das ruelas da Aldeia das Dez entrilhamos pela calçada romana até ao Vale Maceira por entre o verde da vegetação. E viçosa que ela estava pelas chuvadas dos últimos dias para nos receber neste dia soalheiro. Aqueci a alma com a paisagem, com a serpenteante subida ao Santuário da Nossa Senhora das Preces e por fim, com as chamas do Magusto que já nos aguardava. Estava já sentada a descansar de hora e meia de caminhada, a observar as pessoas e a festa quando uma senhora olha para mim e pergunta:
“Gosta de castanhas meneína?”
“Gosto, mas parece que…”
“Mas não quer sujar as unhas…”
Ri-me e continuei entretida a ver as pessoas da organização a prepararem mais uma fogueira, enquanto os demais conversavam e esperavam mais uma mão cheia de castanhas assadas que haviam de escolher por entre as brasas. O G. andava ali pelo meio a registar o momento e não tardaria a chegar com o nosso quinhão.
Vimos mais fogueiras a arder e castanhas a desaparecer, ouvimos a banda improvisada já animada a animar a festa e tive pena que a outra senhora já não estivesse ali para ver as minhas mãos cheias de escarvunça.

Para a Aldeia da Dez regressamos à boleia da generosidade quem nem percebe muito bem a graça que vemos em sair da nossa longínqua casa para passar um dia assim, assim, quente e bom como as castanhas que comemos!



































Aldeia das Dez || Magusto da Nossa Senhora das Preces


sábado, 29 de outubro de 2016


sábado de manhã...


Com o marcador a meio e a certeza de ali ter chegado com leituras dispersas no tempo, envergonhei-me e fiz novamente a mochila. Recomecei como se nunca ali tivesse estado. E parece bem que não, pois só assim se compreende este entusiasmo a cada capítulo que já teme o fim desta viagem.

À hora de almoço, em vez de sair para comer, sair para correr. Experimentar o folgo da falta de treino na minha subida preferida com o sol  a fazer esquecer que foi mais um verão difícil e ausente destas pequenas rotinas. O folgo, folgou-se no passo desacelerado e no coração contemplativo e sorridente que sempre guardo destes momentos.   

terça-feira, 25 de outubro de 2016

ritual

a jarra tombou
a água correu sobre a mesa

as flores calaram-se aos poucos
o espantalho tocou o acordeão

a criança cansou-se do vento
desatou as sandálias

o mar meditou duas vezes
qual o horizonte

do sótão a galinha presa
viu um avião voar

uns quantos vestiram-se de negro
viveram da morte dos outros

suicidou-se uma sombra
debaixo do meu pé

a mulher vestiu-se de branco
para a Ressurreição

o país desbotou
no mapa das escolas

amor que esperas de mim
a não ser eu


de Maria Luiza Neto Jorge 
in Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea, Um panorama Organização de Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno, Lacerda Editores


há pouco no Literatura Aqui, escutei e gostei