domingo, 6 de julho de 2014






estou a sorrir. 
A meio da semana, estando indecisa, vi-me de repente direccionada para fazer algo diferente e para o qual não sentia qualquer apelo, ia fazê-lo porque sim, porque me sugeriram outra opção. Dormi mal sobre o assunto e no outro dia decidi-me a fazer o que me apetecia, ou então não faria nada, mas nada de contraria-me. Depois pedi que no domingo fizesse mau tempo, porque só assim faria aquilo que me apetecia e a meteorologia parecia estar a meu favor.
Hoje, domingo, o relógio despertou às 6h00, respirei fundo, levantei-me, equipei-me e fui buscar o tapa-vento... "tomara que eu precise dele". Peguei na mochila e fui esperar aquele amigo que me desafia para os trails. Este foi numa localidade pela qual sentia curiosidade, Mação. Fui conduzida até lá, onde já se encontravam outros amigos e foi confraternizar até ao sinal de partida. Depois da contagem decrescente estaria de volta dali a 27 km. 
Partimos já sob chuva-molha-parvos-e-outros e eu feliz porque não queria fazer o trail debaixo de calor. O tapa-vento estava puxado até ao pescoço mas depressa o calor que sentia dentro dele me fez tirá-lo. A chuva continuava. Tinha levado chapéu para proteger-me do sol, mas descobri que é igualmente eficiente a proteger-me da chuva. Os óculos não se molharam tanto nem embaciaram, só me tira um pouco de visão periférica, tão necessária para avistar de  forma intuitiva as fitas sinalizadoras do caminho, evitando perder-me. Até ao km 10 tive a companhia de um colega de equipa estreante nestas andanças e logo "atrapalhado" com tudo o que era novidade e com a quantidade de apetrechos com que se armadilhou... depois disparou e fiquei por minha conta. 
Sem ninguém a quem dar conselhos segui com os meus pensamentos assentes na vida e ali naquele momento. segui com os meus pensamentos assentes na vida e ali naquele momento. Naquelas serras que me cercavam, no cheiro dos eucaliptos, dos pinheiros e de outra vegetação diversa, no cantar dos pássaros, no estradão que percorria e circunscrevia as serras, na chuva que me refrescava, no vento que corria a uma temperatura confortável deixando-me apreciar tudo. Como não podia deixar de ser uma pena imensa de não ter a máquina fotográfica para registar aquela parte do percurso que tendo muita vegetação seca no caminho, o orvalho acumulado lhe dava um efeito de algodão doce dando a sensação que corria por entre uma penumbra. Segui, segui e eis que desço até a uma ribeira, Ilha da Fadagosa e as fitas indicavam que devíamos percorrer uns metros da mesma. Com água acima dos joelhos lá me fui equilibrando e desequilibrando sobre os seixos escorregadios, tive quase quase para ir a banhos mas escapei-me. Depois foram duas travessias sobre a ribeira por pontes improvisadas de troncos e cordas e enquanto as passava só pedia que os pés não escorregassem e não me desse nenhuma vertigem... passei a primeira e a segunda e depois foi andar ao longo da margem da ribeira. Aqui um cenário cinematográfico sem palavras para descrever o privilégio que foi passar por ali, e o ridículo que é não parar para contemplar. Que linda toda aquela atmosfera, o som da ribeira, a ribeira em si, a vegetação densa que tinha de afastar com as mãos e baixar-me para puder passar. Atravessar novamente a ribeira sobre o local onde faz cascata. Houve um momento em imaginei que podia aparecer por ali o Frodo Baggins do senhor dos anéis ou um qualquer mago do bem para me cumprimentar. Lindo!! Foi o que verbalizei de forma audível face à última travessia sobre um espelho de água, parei para olhar à volta... ali sozinha sem ninguém para concordar comigo ou garantir-me de que não se tratava de um sonho retomei rumo ao estradão
Ao passar pelo ultimo ponto de controlo, julguei ter escutado que dali para a frente era sempre pela estrada e a seguir as fitas... sempre pela estrada de alcatrão a subir. Ia a subir refletindo sobre uma curva que estava um pouco mais adiante. Qualquer coisa do tipo... "a estrada assim molhada parece manteiga... um carro que apareça ali se vier mais rápido e me veja aqui pode não ter tempo de se desviar convenientemente..." e eis que aparece um carro na curva e trava, foge-lhe a frente para a via contrária e a traseira atravessa-se na sua via... vi que ia dar um pião e sair disparado sabe Deus para onde... (isto com o som das rodas travar/deslizar na estrada)... "...tenho que fugir daqui... mas para onde?!" ... atirei-me direito à berna esquerda, atravessei a respectiva valeta, que era grande, e subi por ali acima mais uns metros para trás de um eucalipto. Voltei-me para trás para ver o que mais estava a acontecer... e vi-o quase a fazer o pião, quando carro recomeça a deslizar no sentido contrário. Mais um "S" e ele conseguiu controlá-lo seguindo em frente... Olhei-o com o coração a mil, nem se voltou para ver se eu estava bem e seguiu... eu fiquei parva com o que acabara de viver e quis chegar o mais rápido à meta. Mas os últimos 3 km foram atribulados. Depois disto deixei de ver fitas, voltei para trás e vi que havia fitas num desvio em que tinha de andar para trás tendo este uma placa que avisava para a proximidade da estrada, logo achei que já tinha passado por ali no sentido inverso, e voltei para estrada principal. Não via ninguém, segui, parei, andei para trás e para a frente. Quando volta  passar outro carro, fiz sinal para que parasse, perguntei se a estrada seguia para Mação e o condutor confirmou que sim... continuo... ok, também podia ter perguntado quantos quilómetros eram até lá, podiam ser 2 km como podiam ser mais... bem sabia eu... passa outro carro pertencente à prova que me disse que estava enganada mas que podia seguir por ali, pois a distância era mais ou menos a mesma, entretanto tive de voltar a pedir ajuda para ir ter ao local da prova, onde atravessei a meta recebida em festa pelos amigos... mas ainda estava um pouco azamboada com os últimos acontecimentos.
Fui tomar banho e regressei ao local prova para o almoço no recinto de uma feira que estava a decorrer e mal entro no "restaurante" de ar livre, estava a ser anunciada a classificação das mulheres e eis que sou chamada por ter ficado em terceiro lugar eeeeehhh (sendo que eramos  só 3 raparigas, não faz mal). Por este meu feito ganhei 2 chouriços de produção tradicional, hummm que pitéu!! ah ah ah! Sentei-me à mesa para almoçar e como já seria de esperar foi só rir com os meus amigos que dizem muitos disparates quando estão juntos. O almoço foi excelente e bem servido a rematar com melancia (já tinha saudades) e arroz doce. Este dia não fica por aqui mas por agora é tudo... 
Tirando os percalços finais, adorei este trail, com este tempo fez-se que foi uma maravilha, sem nunca sentir a fadiga do calor foi muito bom!!


a caminho desta prova convívio pensava em como, comparativamente com outra que podia ter optado por fazer à mesma hora, não muito longe dali, com características geográficas e distância semelhantes, numa via os gigantes de D. Quixote e na outra (esta) via os moinhos. Estou a sorrir e a sentir-me feliz com a minha opção... e em como acabei por passar muito perto de um velho moinho...

Trail das Zagaias
27 km
3h20


1 comentário:

koklikô disse...

Que bela descrição! quase consigo visualizar os sítios por onde passaste :)
Gabo-te a coragem e a força para conseguires realizar estas provas mas percebo tudo o que possa envolver este tipo de prova que acredito que vá muito para além de uma boa preparação física.